SÃO PAULO - Com mercado interno crescente e mais pessoal qualificado, o Brasil ganha espaço na área de serviços de informática.
O Brasil melhorou suas condições para disputar um mercado mundial que deve movimentar 50 bilhões de dólares neste ano e é dominado com ampla folga pela Índia. Trata-se da prestação de serviços de informática contratados por multinacionais americanas e européias fora de suas sedes, o chamado offshore outsourcing. Faz parte desse bolo de negócios, por exemplo, a codificação de programas de computador que milhares de indianos executam para a Microsoft. E também operações como o processamento de folhas de pagamento de indústrias e o suporte a transações bancárias. No ano passado, a exportação brasileira desse tipo de serviços cresceu 37% e rendeu ao país quase 200 milhões de dólares - ainda quase nada perto do que faturou a Índia, cerca de 31 bilhões. Mas, segundo estudo que acaba de ser divulgado pela consultoria de gestão A.T.Kearney, confrontando a competitividade de 50 países no setor, o Brasil está se apresentando com mais vontade para o jogo. Em relação a estudo semelhante feito dois anos atrás, o país conquistou cinco posições no ranking - é agora o quinto colocado.
"É uma ótima notícia para o Brasil", diz o americano Mark Livingston, presidente da subsidiária local da A.T.Kearney. "O país tem um grande potencial para avançar nos negócios desse setor." O estudo da consultoria avalia, país por país, 40 indicadores em três áreas: custo e atratividade financeira, qualificação das empresas e profissionais, e ambiente de negócios. O que permitiu ao Brasil subir no ranking foi principalmente a melhoria da competência do setor. No ano passado, o país foi o primeiro colocado em número de empresas que obtiveram certificados de qualidade. Também se destacou em número de diplomados em faculdades de computação e áreas afins, ficando em quinto lugar. O tamanho do mercado interno ajuda a aumentar a competitividade. Segundo levantamento feito pelo instituto de pesquisa IDC em parceira com a Associação Brasileira de Empresas de Software (Abes), o mercado doméstico de serviços e software, de 9 bilhões de dólares em 2006, é o 13o do mundo, bem próximo ao da China, 11a colocada - nesse caso, a Índia nem figura entre os 15 primeiros do ranking. O mercado brasileiro teve crescimento real de 12% sobre o ano anterior. A consultoria Accenture, por exemplo, pretende ampliar de 700 para 2 000 o número de funcionários neste ano. "Estamos contratando fortemente para atender à demanda crescente", diz Enrique Sotto, sócio da Accenture no Brasil.
Exibir mais suas qualidades é algo que faz falta ao Brasil para conquistar espaço como prestador de serviços. "Aqui se desenvolveu um setor de tecnologia da informação sofisticado e isso deve ser exposto de forma mais agressiva", afirma Livingston. "É preciso capitalizar as vantagens e criar uma marca forte, como fizeram outros países. Na Índia, esse esforço de divulgação da imagem congrega estudantes que estão em escolas estrangeiras, empresas e governo." Além de superar a timidez na autopromoção, o Brasil tem de atacar outras frentes em que está em nítida desvantagem. A pior delas é a carga tributária. Nesse quesito, figura em último lugar na lista de 50 países do estudo da A.T.Kearney. Por esse e outros motivos, no que diz respeito a atratividade financeira e custos, a posição brasileira é a 29a, numa coluna encabeçada pelo Vietnã. A avaliação do ambiente de negócios também deixa muito a desejar - o Brasil está em 33o lugar.
Enfrentar esses problemas é uma urgência não só para se candidatar a ganhar mercado mas também porque outros competidores estão acelerando. Vários vizinhos da América Latina subiram no ranking geral, até mais que o Brasil. O México galgou sete degraus, para a décima posição. O Chile, com o melhor ambiente de negócios da região, está em sétimo lugar. Uma das medidas tomadas pelos chilenos para se tornar ainda mais competitivos é a implantação de um amplo programa de ensino de inglês. A fluência em língua estrangeira é uma das carências da mão-de-obra brasileira, o que faz com que as empresas locais tenham dificuldade para preencher vagas mais qualificadas. "Empresas como IBM e Tata têm em aberto muitos postos para atender clientes do exterior", diz Jorge Sukarie, presidente da Abes.
Mais que defender seu campo, o Brasil deve ser mais ambicioso. "A Índia e a China são difíceis de bater, mas a Malásia e a Tailândia ocupam posições que podem ser almejadas", diz Livingston. "As multinacionais querem distribuir seus fornecedores, para diminuir riscos, e procuram fazer combinações geográficas, como Índia-Brasil e Índia-México." Ou seja, o Brasil é bom candidato, mas precisa se empenhar para chegar antes dos adversários.
| Escalada mundial |
| O Brasil subiu cinco postos no ranking geral(1) de destinos para a terceirização de serviços de tecnologia, elaborado pela consultoria A.T.Kearney |
| Posição em 2005 | Posição em 2007 |
| 1º | Índia | 1º | Índia |
| 2º | China | 2º | China |
| 3º | Malásia | 3º | Malásia |
| 4º | Filipinas | 4º | Tailândia |
| 5º | Cingapura | 5º | Brasil |
| 6º | Tailândia | 6º | Indonésia |
| 7º | República Checa | 7º | Chile |
| 8º | Chile | 8º | Filipinas |
| 9º | Canadá | 9º | Bulgária |
| 10º | Brasil | 10º | 1México |
| (1) Entre 50 países avaliados |
| Globalização em marcha |
| A terceirização internacional de serviços de tecnologia da informação avança... |
| 50 bilhões de dólares em serviços de tecnologia devem ser contratados em 2007, com crescimento de 39% sobre o ano passado |
| 195 milhões de dólares foi quanto o Brasil faturou com as exportações do setor no ano passado, 37% mais que em 2005 |
| ...e beneficia principalmente países emergentes(1) |
| Índia | 36% |
| América Latina | 18% |
| China | 10% |
| Canadá e México | 10% |
| Leste Europeu | 9% |
| Estados Unidos | 5% |
| Sudeste Asiático | 5% |
| Outros | 7% |
(1) Amostra de 42 empresas/contratações de serviços feitas desde maio de 2006 Fontes: IDC / Abes e A.T. Kearney |
Portal EXAME
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