SÃO PAULO - Poucos países mudaram tanto de perfil em um curto espaço de tempo como a Índia.
De uma economia altamente centralizada pelo Estado e com pouco espaço para a iniciativa privada até o início da década de 90, a Índia converteu-se na maior potência mundial exportadora de software e serviços de informação. Incentivos governamentais para a liberalização econômica, a reformulação no regime tributário e a inclusão da tecnologia da informação como política pública levaram o país a atingir taxas médias de crescimento de 8,5% ao ano e a movimentar 30,3 bilhões de dólares no segmento em 2007. Mas a terra promissora do outsourcing mostra os primeiros sinais de fadiga aos olhos mundiais. Os fatores que levavam a Índia a ser destino praticamente certo dessas contratações, como mão-de-obra de baixo custo, abundância de profissionais qualificados e fluentes em inglês, já não são atraentes o suficiente para superar problemas históricos cada vez mais evidentes. A crescente instabilidade política no vizinho e rival Paquistão aumenta a insegurança de empresas que têm muitos de seus sistemas críticos rodando na Índia. Outro ponto de interrogação são os possíveis gargalos de energia, infra-estrutura e pessoal -- o volume de profissionais qualificados não conseguiu suprir a demanda, e a busca por talentos desencadeou um verdadeiro leilão por mão-de-obra qualificada. Isso significa salários mais altos e taxa média de rotatividade de 50% ao ano, cenário impensável para quem busca qualidade nos projetos.
Problema para uns, solução para outros. De olho nas migalhas que podem sobrar de um mercado mundialmente avaliado em mais de 70 bilhões de dólares, vários países têm se movimentado para desfilar suas qualidades, entre eles China, Rússia, Filipinas, Argentina, México e, sobretudo, o Brasil, que agora está diante de uma das maiores oportunidades da história do setor de serviços de tecnologia da informação. Dona de um faturamento de mais de 170 bilhões de dólares, a General Electric está à procura de um destino alternativo à Índia. Os contratos de terceirização da GE no país são avaliados em 700 milhões de dólares. A maior parte está com empresas indianas, mas o diretor de tecnologia da empresa, Gary Reiner, disse a EXAME que a expectativa é trazer para cá 100 milhões de dólares ao longo de três anos em serviços de programação em software. Isso, é claro, se as empresas brasileiras de serviços conseguirem superar alguns desafios que ainda detêm o desenvolvimento do setor, como os custos com mão-de-obra, especialmente os trabalhistas. Estima-se que hoje a hora de trabalho de um programador brasileiro custe de 15% a 25% mais do que a de um indiano. "Gostamos do que vimos no Brasil: excelente qualidade dos serviços, boa gestão das empresas e um índice de rotatividade bem mais aceitável do que na Índia, em torno de 10% a 15%", diz Reiner, que esteve no Brasil no final de janeiro. Ele ficou especialmente impressionado com o que viu no Bradesco, que tem um dos maiores projetos do país em tecnologia feita por parceiros terceirizados brasileiros. Três empresas nacionais já estão em contato para tentar ficar com parte das verbas da GE: CPM Braxis, BRQ e Stefanini. Pa ra levar os contratos, terão de vencer concorrentes da China, da Europa Oriental e dos vizinhos Argentina, Chile e México.
O Brasil movimenta hoje cerca de 800 milhões de dólares em exportação de software. O dado é aproximado, pois muitas multinacionais instaladas no país não revelam seus números locais. Uma das que mais vêm crescendo é a IBM. Seu centro em Hortolândia, no interior de São Paulo, foi inaugurado em 2005 e consumiu 20 milhões de dólares em investimentos. Nesse curto período, já se firmou como um dos principais centros mundiais da empresa para a prestação de serviços. Nos últimos três anos, a IBM contratou cerca de 90 000 pessoas em países em desenvolvimento, criando uma rede global de prestação de serviços. Quando um cliente de grande porte procura a Big Blue para terceirizar a administração de seus servidores, por exemplo, a carga de trabalho é dividida entre vários países, de acordo com a especialidade e os custos de cada um. A Índia ainda tem o maior contingente de funcionários -- 75 000 no total -- e fica com a maioria dos contratos de desenvolvimento de software. Mas a filial brasileira, cuja especialidade são os computadores de grande porte e suas linguagens de programação, tem crescido em importância. Dos 7 200 funcionários instalados em Hortolândia, mais de 1 300 são dedicados exclusivamente a operações internacionais.
CERCA DE 60 CLIENTES têm parte de seus sistemas de tecnologia rodando no interior paulista. A anglo-holandesa Unilever buscou a IBM para integrar e padronizar os sistemas de compras na América Latina, e todo o trabalho é centralizado em Hortolândia. Outras companhias de atuação internacional, como Gap, Whirlpool, Inbev e Nestlé, também usam serviços gerenciados na central da IBM no Brasil, e há pelo menos outras 12 empresas internacionais de grande porte estudando migrar seus contratos para o país. "Hoje, existem dois grandes entraves para que a operação de outsourcing cresça ainda mais", diz Marcelo Villar, gerente de serviços de aplicações da IBM. O primeiro é a falta de mão-de-obra. E o segundo, naturalmente, é a carga tributária.
É aí que entra o trabalho da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom), uma entidade literalmente copiada da indiana Nasscom, que congrega o setor exportador daquele país. No fim do ano passado, a Brasscom apresentou um projeto que prevê redução do percentual do INSS, mas até agora não houve nenhum tipo de movimentação por parte do governo em aceitá-la. "Nunca imaginei que torceria pela CPMF", diz Antonio Gil, presidente da Brasscom. Na opinião de Gil, o fim do imposto diminui as chances de o setor ter suas demandas atendidas. Outra prioridade de Gil é conseguir convencer os grandes compradores estrangeiros de que o Brasil pode ser uma alternativa à Índia. Entre os argumentos estão o vigoroso mercado interno -- avaliado em mais de 9 bilhões de dólares --, o fuso horário favorável, a segurança e a estabilidade política.
Enquanto os incentivos governamentais não vêm e os esforços de marketing não decolam, as empresas brasileiras de serviços tentam ganhar musculatura para concorrer aos contratos internacionais. A abertura de capital é uma das formas, já que dá poder de fogo para crescimento e transmite maior credibilidade ao investidor por causa dos requisitos de governança corporativa. A lista de potenciais IPOs neste ano no segmento inclui Stefanini, CPM Braxis, Politec, Tivit e BRQ. "O Brasil precisa de empresas grandes para ser competitivo no exterior. A abertura de capital traz fatores que favorecem esse crescimento", afirma Benjamin Quadros, presidente da BRQ, que em 2007 exportou 15 milhões de dólares e faturou cerca de 85 milhões de dólares. Outra forma de desenvolvimento que está nos planos da companhia são as aquisições -- três estão previstas até o final de fevereiro, duas no Brasil e uma nos Estados Unidos. "O mercado mundial de serviços de TI vive um momento de diversificação e, embora a Índia ainda deva perdurar como líder por anos, existe uma janela de oportunidade expressiva a ser aproveitada", diz Francisco Ribeiro, diretor de centros globais da Accenture. Segundo a consultoria Gartner, em 2008, 30 países estarão bem capacitados para exportar serviços de tecnologia. Resta saber qual deles terá mais
<p><a href="" rel="bookmark" title="INFO Online">A cobiça pelas sobras da Índia</a>, Camila Fusco / Revista Exame - SÃO PAULO - Poucos países mudaram tanto de perfil em um curto espaço de tempo como a Índia.
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