SÃO PAULO - Um executivo-chefe jovem e cabeludo conseguiu mudar o rumo de uma empresa ícone do Vale do Silício.
Não foram poucos os que previram o desastre quando Jonathan Schwartz assumiu o cargo de executivo-chefe da Sun Microsystems, uma das maiores empresas de computação do mundo, em abril de 2006. A fornecedora americana de equipamentos e software tem um invejável histórico de inovações que marcaram a indústria de tecnologia, mas passou os últimos cinco anos colecionando resultados decepcionantes que minaram a confiança dos investidores. Schwartz dificilmente parecia a pessoa certa para romper esse ciclo. Com rabo-de-cavalo, ar jovial e sempre sorridente, o executivo de 40 anos era uma figura que não combinava com uma companhia que vivia dias cinzentos. Há poucas semanas, quando a Sun anunciou lucro de 126 milhões de dólares em seu segundo trimestre do ano fiscal de 2007 -- o melhor resultado em muito tempo --, Schwartz começou a ganhar outra estatura. Paralelamente, a Sun revelou que receberá um aporte de 700 milhões de dólares do Kohlberg Kravis Roberts, grupo de investimentos de risco conhecido por apostar em negócios subvalorizados que pouco depois demonstram ter grande potencial. Resultado: as ações subiram quase 9% num dia e bateram um recorde de 52 semanas. Wall Street finalmente deu um voto de confiança àquela que já foi a maior rival da Microsoft. Ponto para Schwartz.
Para chegar a esse resultado, a Sun teve de passar por uma mudança radical em seu modelo de negócios. Abriu o código-fonte do Solaris, seu sistema operacional, e passou a distribuir o produto gratuitamente, seguindo o modelo do Linux, outro programa que experimentou espansão vertiginosa nos últimos anos. À primeira vista, parece nonsense dar o que antes era vendido. Não é bem assim. Ter um sistema não vale nada se o programa em questão não for integrado com outros software para realizar determinadas funções. A Sun cobra para fazer esse serviço. E tudo isso precisará rodar em grandes computadores, os chamados servidores -- adivinhe, fabricar essas máquinas é uma das especialidades da empresa. O mais importante, contudo, é que nenhuma companhia monta um programa que será vital à sua operação sem um contrato de assistência técnica. De novo, a Sun fatura com esses contratos. Mais de 7 milhões de cópias gratuitas do Solaris já foram baixadas.
A mesma medida foi tomada com outro código importante para a companhia, a linguagem de programação Java, o que tornou o Brasil um mercado ainda mais relevante para a Sun. O país está entre os líderes em número de desenvolvedores especializados em Java -- são cerca de 80 000 pessoas. O objetivo da Sun ao abrir a caixa-preta de suas criações é engajar programadores, técnicos e estudantes de computação. Com isso, a fornecedora está conquistando a base da pirâmide dos profissionais de informática. Quando os gerentes de tecnologia sentam com sua equipe para definir o escopo de um projeto, escutam que o sistema deve ser feito em Java -- e levam a sugestão a seus diretores. Foi assim no Banco do Brasil, em que a Sun foi a principal vencedora de um contrato de 39 milhões de reais devido à familiaridade da equipe da instituição financeira com Java. "O Brasil", escreveu Schwartz em um e-mail a EXAME, "tem sido pioneiro em seus esforços para aprimorar a tecnologia de código aberto. Há um tremendo potencial de crescimento no país."
Além da transformação nos negócios, Schwartz mudou a imagem da Sun. A empresa era muito associada à figura do fundador, Scott McNealy, conhecido por seu pavio curto no trato com analistas, jornalistas e até com os próprios clientes. Schwartz foi um dos primeiros executivos a escrever regularmente um blog. E foi justamente nesse espaço que ele obteve uma conquista importante para a Sun e para outras empresas de capital aberto. Em setembro do ano passado, ele publicou uma crítica às regras da SEC -- órgão que regulamenta as bolsas e o mercado de capitais nos Estados Unidos --, que exigiam que comunicações aos acionistas fossem feitas em papel. O responsável pela SEC, Christopher Cox, respondeu no próprio blog de Schwartz. Disse que concordava com a importância da internet e que a restrição estava sendo discutida. No final de janeiro, Cox anunciou que comunicados e outras publicações relevantes poderão ser realizados por via eletrônica.
Resta saber se essas mudanças -- na atitude e nos negócios -- serão suficientes para levar a empresa de volta ao topo do mundo da tecnologia. Na segunda metade dos anos 90, a Sun tornou-se uma das mais brilhantes estrelas do Vale do Silício. Seus equipamentos eram os preferidos para montar a estrutura tecnológica dos empreendimentos de internet que brotavam irrigados por recursos de investidores de risco. Era corrente a analogia de sua estratégia com a dos vendedores de equipamentos de mineração durante a corrida do ouro no Alasca, no século 19. Poucos que foram atrás das jazidas enriqueceram, assim como foram raros os empreendimentos de web que se constituíram em empresas de sucesso. Mas quem vendeu pás, picaretas e trenós aos aventureiros invariavelmente ganhou dinheiro. É certo que boa parte dos aportes que foram realizados nas ponto-com acabou nos cofres da Sun. Mas, com o estouro da bolha da Nasdaq, a fornecedora viu seu mercado murchar. A crise foi sentida no mundo todo, inclusive no Brasil. Após quatro anos de bonança, a subsidiária nacional da Sun sofreu um baque em 2002, quando seu faturamento encolheu quase um terço, para cerca de 120 milhões de dólares, segundo um executivo que ocupava um alto cargo na empresa na época. Esse é o tamanho da missão de Schwartz. Ainda é cedo para afirmar que uma recuperação consistente está em curso, mas pelo menos seu começo foi melhor do que muitos esperavam.
| Uma nova empresa |
| Nos últimos anos, a Sun promoveu uma série de transformações |
| A antiga SUN |
- Foco em equipamentos - Aposta em grandes servidores - Tecnologias proprietárias - Atuação isolada |
| A nova SUN |
- Serviços e software ganham importância - Aposta em equipamentos mais leves - Tecnologias abertas e, em alguns casos, gratuitas - Parcerias com empresas como AMD e Intel |
Blog da Sandra Carvalho: A Sun se vinga...
Portal EXAME